A cultura massiva de proibição das drogas vai muito além da utilização e pesquisas falaciosas que buscam manter a criminalização dessas substâncias. O que grande parte da população não sabe é que em um passado não muito distante praticamente todas as drogas hoje ilegais eram legalizadas e até receitadas por médicos. E no Brasil a história não foi diferente.
A chegada da maconha em território brasileiro pode ser analisada por dois períodos históricos. O primeiro refere-se ao ano de 1500, quando o navegador português Pedro Álvares Cabral, acompanhado de sua esquadra, desembarcou pela primeira vez em terras brasileiras. De acordo com o historiador Henrique Carneiro as embarcações portuguesas comandadas por Cabral transportavam aproximadamente 800 toneladas de cânhamo, que estavam presentes nas velas, nas cordas e até na roupa dos tripulantes.
Com os europeus focados em utilizar o cânhamo nas formas citadas acima, coube a outros povos disseminar o consumo recreativo da cannabis em território brasileiro. Ainda de acordo com Henrique Carneiro os primeiros escravos das etnias Quicongo e Quimbundo trouxeram as sementes escondidas nas suas roupas, dentro dos navios negreiros. "Diferente dos portugueses, os escravos utilizavam a erva com fins recreativos e para entrar em contato com o lado espiritual", explica o historiador.
Com o passar do tempo a erva que era utilizada apenas pelos negros nos raros momentos de lazer foi conquistando adeptos entre outros grupos sociais. Na cultura indígena a maconha também ganhou importante valor cultural. O documentário Dirijo (nome dado a maconha por algumas tribos) revela como depoimentos dos próprios índios a forma como a cannabis passou a ser cultivada e utilizada dentro das tribos.
Sem conhecer a maconha como droga, os índios brasileiros cultivaram a maconha e utilizaram em rituais e de forma recreativa e espiritual. Nas aldeias e nas senzalas a maconha não era tratada como droga depreciadora de valores morais ou como sendo prejudicial ao organismo. Esse pacífico relacionamento entre homem e planta só começou a mudar com a aproximação do homem branco que já marginalizava e satanizava o consumo de maconha por conta de suas raízes negras.
É justamente neste contexto de intolerância e preconceito a outras culturas que começa a história da proibição da maconha no Brasil. Segundo o antropólogo Sérgio Vidal "os primeiros documentos oficiais que proibiam o uso da maconha saíram das Câmaras Municipais do Rio de Janeiro, em 1830, de Santos, em 1870, e em Campinas, no ano de 1876. As posturas eram curiosamente inversas as atuais, prevendo punições mais severas para quem usasse a erva do que para quem a traficasse", explica.
Mas proibição em todo território brasileiro aconteceu apenas em 1932, durante o governo Vargas. Assim como é feito até hoje, as justificativas utilizadas para proibir a cannabis eram fundamentadas em dados que, mesmo naquela época, já careciam de uma fundamentação científica. O que fica mais evidente nas páginas da nossa história é uma mancha de racismo e perseguição à cultura das classes não dominantes.
Proibiram, mas continua tendo maconha pra quem quer. O pior é que hoje em dia só chega maconha paraguaia, que não parece muito saudável...
Proibiram, mas continua tendo maconha pra quem quer. O pior é que hoje em dia só chega maconha paraguaia, que não parece muito saudável...