Mais do que trazer danos terríveis para a vida em sociedade a criminalização das drogas também afeta questões individuais da vida do cidadão comum. Marginalizado pelo Estado, amigos e pela própria família o usuário de drogas ilícitas tende a transformar seu hábito em um segredo que poucos conhecem. Quando “a casa cai” as consequências costumam ser traumáticas.
Não é difícil encontrar quem diga que o Brasil só começa a funcionar depois do Carnaval. Apesar de não ser uma verdade absoluta é possível dizer que esta afirmação deve, pelo menos em alguns casos, ser levada a sério. É fato que a organização de uma mobilização popular fica seriamente comprometida nos meses que antecedem a folia.
Os bastidores da criminalização da maconha revelam que esta decisão vai muito além das já conhecidas questões morais e médicas. Sem querer levantar uma teoria da conspiração é possível dizer que o poder econômico, sobretudo de indústrias concorrentes ao cânhamo, teve participação fundamental no lobby que conseguiu proibir o cultivo da cannabis em quase todo planeta.
Raul Seixas disse certa vez que preferia ser uma metamorfose ambulante. Já o filósofo Immanuel Kant declarou que “O sábio pode mudar de opinião. O ignorante, nunca”. Adotar um novo conceito ou posição sobre determinada problemática é algo que faz parte da natureza daqueles que não abandonam a busca por conhecimento e estão sempre refletindo sobre suas posições.
O debate sobre a legalização das maconha ainda enfrenta uma poderosa frente oposicionista. A mais arrogante delas faz uso da tática de criminalizar o movimento com base no crime de apologia ao uso drogas. Como é de conhecimento público, esta linha de pensamento resultou na proibição de várias edições da Marcha da Maconha pelo Brasil.
Qualquer ativista político que tenha ambições reais de mudar alguma coisa precisa considerar a Internet como principal canal de disseminação de novas ideias. Se no passado recente a produção de informação estava restrita aos grande conglomerados de comunicação, hoje o cidadão comum dispõe de ferramentas livres e gratuitas que possibilitam revelar uma nova verdade em escala global.
O debate que antes estava limitado a um pequeno grupo de ditos "idealistas" começa aos poucos a atingir as massas. Se no passado era possível contar nos dedos aqueles que falavam de maconha publicamente, hoje temos um cenário bem mais amplo e diversificado. É com esta pluralidade de idéias e pessoas que a cultura canábica se fortalece e caminha para uma normalização social.
Quando foi instituída em quase todo planeta, a proibição das drogas buscava erradicar totalmente a produção e o consumo das substâncias ilícitas. Para o sucesso deste projeto, liderado pelos Estados Unidos, foi um realizado um pesado investimento em forças repressivas que combatiam (e ainda combatem) produtores e consumidores das drogas.
Uma cortina de fumaça encobre a mente de gerações nascidas com a política de criminalização das drogas. Mas não é fácil mudar a atitude de quem passou boa parte da vida lendo e ouvindo que a guerra às drogas busca libertar a humanidade do mal gerado pelo consumo de substâncias depreciadoras da raça humana.
Engana-se quem acredita que a economia das drogas limita-se a cadeia produtor - comerciante - consumidor. Não é necessário uma pesquisa muito profunda para descobrir uma rede de empresas legais que encontram nos consumidores de drogas ilícitas boa parte do seu lucro. No caso da maconha, a cultura de contemplação da erva aumentou ainda mais a possibilidade de desenvolvimento comercial neste meio.
Para a construção de um ativismo eficiente do ponto de vista político, a participação de pessoas públicas é fundamental. Felizmente, na luta pela legalização da maconha no Brasil, contamos com a contribuição de juristas, médicos e políticos de diferentes partidos.
Os avanços das políticas de drogas no Brasil dependem fundamentalmente do fortalecimento do ativismo popular. E díficil imaginar qualquer mudança na atual legislação sem a pressão de grupos populares.
A possibilidade de exploração legal da maconha abre as portas de um mercado que pode despertar o interesse até daqueles que defendem a proibição da erva. O Brasil, com estimados quatro milhões de usuários, pode se tornar um local altamente rentável para os investidores da cultura canábica.
O debate sobre a elaboração de uma nova política de drogas ainda vive um período de divergências. Mesmo dentro do movimento antiproibicionista, ainda não existe um consenso sobre o rumo a ser tomado. As propostas de liberação, legalização e descriminalização ainda confundem a cabeça da população e de boa parte da imprensa, que constantemente usa os termos acima de forma equivocada.
O debate sobre a legalização da maconha é freqüentemente relacionado a importância da iniciativa ser tomada em escala global. Por isso a existência de um projeto pioneiro é fundamental para o avanço do debate.